29 de setembro de 2026 - 17:29

Paul McCartney revisita fase pós-Beatles em documentário

Documentário de Morgan Neville acompanha o período entre 1968 e 1980 e mostra os desafios enfrentados por McCartney após o fim dos Beatles.
Por Mariana Rolim - Educadora FM 90.9 • Atualizado há 2 horas

Foto: Reprodução Instagram

O que Paul McCartney fez depois do fim dos Beatles? O documentário “Man on the Run”, dirigido pelo cineasta vencedor do Oscar Morgan Neville, revisita justamente esse período da carreira do músico e acompanha a criação do Wings, sua segunda banda.

Com imagens inéditas de McCartney, da família e do Wings, o filme percorre a trajetória do artista entre 1968 e 1980. A produção mostra desde os primeiros momentos após o fim dos Beatles até a retomada das apresentações em grandes arenas nos Estados Unidos.

O documentário está disponível no Amazon Prime e também foi exibido no Academy Museum, em Los Angeles, nesta segunda-feira (28). Após a sessão, McCartney e Neville participaram de uma conversa mediada pelo cineasta Judd Apatow.

A história começa na fazenda de McCartney, na Escócia, onde o músico vivia com a esposa, Linda, e a família. Naquele momento, os Beatles haviam encerrado a trajetória, embora o público ainda não soubesse oficialmente da separação.

“Man on the Run” acompanha os obstáculos encontrados por McCartney ao iniciar uma nova fase profissional. O filme também aborda as críticas que o músico recebeu por parte de sua produção solo, o assassinato de John Lennon, a passagem de McCartney por uma prisão japonesa e a decisão de processar os próprios Beatles.

Stella e Mary McCartney, Mick Jagger, Denny Laine, Laurence Juber, Chrissie Hynde, Joe English e o próprio Paul participam do documentário. Linda McCartney, que morreu em 1998, também aparece por meio de imagens de arquivo, fotografias, narrações e registros da época.

McCartney fala sobre o fim dos Beatles e o início do Wings

Durante a conversa após a exibição do filme, McCartney falou sobre a decisão de formar uma nova banda depois do fim dos Beatles.

Então, Paul, quando alguém diz “Vamos fazer um documentário sobre o Wings”, você pensa “Ótimo, eu realmente quero me aprofundar nesse período da minha vida”, ou “Ai, meu Deus”?

Paul McCartney: Não, eu gosto desse período. Bem, sabe, agora é uma lembrança carinhosa. O que você faz depois dos Beatles? Os Beatles se separam. Esse foi o único trabalho que você já teve na vida, e de repente você não tem mais. É como se você tivesse sido demitido. E foi aí que surgiu o Wings, sabe — tentando descobrir o que fazer. E, como você pode ver no filme, a gente se saiu bem. Foi meio maluco, sabe. Mas, sim, eu gosto desse período.

Ah, e além de [sair dos Beatles], teve esse cara dos negócios, Allen Klein, que basicamente roubava os Beatles, e eu era o único que achava isso. Os outros caras achavam: “A gente ama ele.”

Por que eles eram tão bobos assim? Sinceramente, porque eu acho que as pessoas de negócios sabiam que ele era meio suspeito.

Paul McCartney: Eu vou te dizer por quê. Porque você estava numa reunião com ele, e ele dizia: “O que vocês querem? O cara de Nova York, o que você quer? O que você quer? Um milhão de dólares?” “Sim.” “Ok, é seu.”

Ele só prometia mundos e fundos e não entregava nada. Mas, enquanto isso, eu conseguia ver que ele era um vigarista. Era eu contra os outros caras, e isso era a pior parte. Sabe, quer dizer, eu já tinha discordado dos caras em relação à música, mas aquilo tudo bem, porque você podia dizer, “Bem, eu realmente acho que isso está certo”, e por aí vai.

E eu tanto concordava quanto discordava, e às vezes eu seguia a versão deles, sabe. Mas era relativamente fácil de resolver. Aquilo, de repente, era tudo o que a gente já tinha ganhado — todo o dinheiro que a gente já tinha ganhado — que ia parar na conta bancária daquele cara, e eu realmente tive que lutar contra isso.

E são seus melhores amigos, então você está processando seus melhores amigos.

Paul McCartney: Bem, foi isso mesmo. Eu disse, “Ok, eu vou processar o Allen Klein. Eu vou pegar ele.” Meus advogados eram o pai e o irmão da Linda, então eu disse, “É, vamos lá. A gente vai pegar esse cara.” Eles disseram, “Você não pode, porque ele não é parte de nenhum dos contratos. As únicas pessoas que são parte desses contratos são os Beatles.” Eles disseram, “Então você vai ter que processar eles.”

Eu disse, “Bem, eu não posso fazer isso.” Isso durou meses. Eu disse, “Eu não consigo fazer isso, sabe. É como se o mundo inteiro fosse ficar contra mim, primeiro, e eu mesmo ia ficar contra mim, e não é uma ideia muito boa.” Então, no fim, aquele era o único jeito. Eu tinha que fazer.

O músico também falou sobre a pressão de começar novamente depois de ter alcançado sucesso mundial com os Beatles.

Um monte de gente faz coisas incríveis quando é muito jovem, e depois, pelo resto da vida, nunca mais chega perto daquilo. Isso foi um terror pra você?

Paul McCartney: Sim, eu acho que só o fato de estar sozinho já era bem assustador, porque eu sempre tinha tido a união do grupo, mas aí eu tive que descobrir como eu faria aquilo e como tornaria diferente. Esse era o truque, porque eu pensei, “Bem, eu poderia simplesmente escrever mais umas músicas no estilo dos Beatles, e a gente poderia imitar aquilo. A gente seria tipo uma banda cover dos Beatles.”

A fase também envolveu críticas ao álbum “Ram”, lançado por McCartney em 1971 com participação de Linda. Com o passar dos anos, o disco ganhou outra leitura e passou a ser considerado uma referência para diferentes artistas.

Quando você olha para trás, “Ram” é considerado um clássico. Muita gente acha que ele foi até o começo de um certo tipo de indie rock e de gravação caseira. Mas quando as pessoas te atacaram por causa dele na época, foi devastador que as pessoas não soubessem como apreciá-lo pelo que ele era?

Paul McCartney: Sim, eu acho que sim. Eu achava que a gente tinha algo especial, e os críticos não achavam. Críticos criticam, e eles me criticaram. Então, com todas essas esperanças — com a família jovem e esse disco — eu pensei, “Esse é um disco bom.” A pior parte é que eu acreditei nisso. Eu escutei os críticos e pensei, “Talvez eles estejam certos. Eu não sei.” Por anos, eu achei que não era um álbum muito bom. Aí, um dia, um dos meus sobrinhos veio até mim e disse, “Sabe, meu álbum favorito seu é o Ram.” Eu fiquei tipo, “O quê?” E de repente eu voltei a gostar dele.

A relação com John Lennon e a criação do Wings

O documentário também aborda a relação entre McCartney e John Lennon durante o período que sucedeu o fim dos Beatles.

Por que você acha que aquele período incomodava o John Lennon? Era a alegria daquilo tudo, enquanto ele estava fazendo o Primal Scream e você estava se divertindo? O que você acha que incomodava ele nisso?

Paul McCartney: É só uma dessas coisas. Quer dizer, eu amava o John e amo ele até hoje, e sempre vou amar. Não importaria, como não importou, o que ele dissesse ou fizesse, porque eu o conhecia desde os meus 15 anos, então ele era esse cara maluco que eu conhecia, e eu realmente o admirava.

Quando você tem 13 anos e meio, ou algo assim — e, quando eu era um pouco mais velho, eu tinha 15, e ele tinha 16 e meio — existe aquele tipo de cara que é cruel e espirituoso e sempre certo. Você o admira e diz, “Nossa, ele é muito legal.” Eu sempre achei o John muito legal, e ainda acho. Mas ele podia ser um completo idiota em relação a algumas coisas. Ele era um cara adorável. E a questão é, se você olhar para a vida dele, há motivo para ele ser meio maluco. Muitas coisas ruins aconteceram com ele.

A ideia de criar o Wings surgiu enquanto McCartney acompanhava uma apresentação de Johnny Cash na televisão. O cantor havia formado uma banda com Carl Perkins e outros músicos de country que McCartney conhecia.

Em que momento você acordou e disse, “Eu quero começar outra banda”?

Paul McCartney: A gente estava assistindo o Johnny Cash na TV, e ele tinha montado uma banda com Carl Perkins e alguns caras do country de quem a gente gostava muito. Eu só pensei, “Nossa, o Johnny acabou de montar uma banda. Que ideia ótima!” Eu me virei para a Linda e disse, “Você quer? A gente devia começar uma banda? Você quer fazer parte dela?”

McCartney sabia que Linda não tinha formação musical, mas decidiu convidá-la para integrar o projeto. Os dois passaram a aprender juntos enquanto construíam a nova banda.

Eu sabia que ela não tinha nenhuma educação musical, mas aí eu pensei, “Bem, a gente também não tinha nos Beatles. A gente não sabia nada.” Mas a gente aprendeu alguns acordes, e a gente aprendeu junto. Essa era a parte boa: a gente subiu os degraus junto. Ela levou muita crítica por causa disso, e eu levei muita crítica por causa disso. “Ah, Mick Jagger, o que ela está fazendo nessa banda, essa velha?” Vai se ferrar. O que isso tem a ver com ele?

O Wings passou a reunir McCartney, Linda e Denny Laine, além de outros músicos que participaram de diferentes momentos da trajetória do grupo. Para McCartney, a formação encontrou seu próprio caminho com o passar do tempo.

Vocês tinham uma mistura incrível como cantores — vocês dois e o Denny Laine. Vocês percebiam que havia uma espécie de mágica naquele som?

Paul McCartney: Eu escuto agora e penso, “Nossa.” A voz da Linda, em particular, é muito boa. Ela acrescenta um tempero bem interessante. Você tem que lembrar, não existiam sistemas de Auto-Tune, então ela tinha que simplesmente cantar certo. Ouvindo de novo, eu acho que ficou muito bom. Era uma ótima combinação.

No fim, a gente fez o que os Beatles fizeram: a gente melhorou. A gente persistiu e ficou muito bom no final. A gente conseguia vir para a América, lotar o reino ou seja lá o que fosse, e fazer um bom show no final. Mas deu muito trabalho.

Ao vivo