Filme resgata imagens inéditas de Elvis Presley guardadas por 50 anos
Material com 59 horas de shows e bastidores inspira EPiC: Elvis Presley in Concert, que chega aos cinemas em fevereiro

Foto: Reprodução
Durante cinco décadas, registros raros de Elvis Presley permaneceram fora do alcance do público. As imagens, que somam cerca de 59 horas e reúnem 10 shows gravados profissionalmente no início dos anos 1970, ficaram armazenadas no fundo de uma mina de sal no Kansas. Entre admiradores do artista, a existência desse material circulava como relato distante, sem confirmação oficial.
O cenário mudou em 2022, quando o diretor Baz Luhrmann assumiu a cinebiografia Elvis, produção da Warner Bros. estrelada por Austin Butler e Tom Hanks. Durante o desenvolvimento do longa, Luhrmann solicitou acesso integral ao acervo guardado pelo estúdio. O objetivo era simples: verificar se as imagens poderiam contribuir para o processo criativo do filme.
Ao analisar o material, o diretor encontrou apresentações captadas por diferentes câmeras, além de registros de bastidores e entrevistas concedidas por Presley, artista conhecido por evitar a imprensa. “Não podíamos deixar essas imagens se perderem”, afirmou Luhrmann em conversa por Zoom, enquanto caminhava por Tóquio. “Na hora, eu soube que tínhamos que fazer algo com elas”.
Desde o início, Luhrmann descartou a ideia de um documentário convencional, estruturado de forma cronológica e apoiado em depoimentos de especialistas. Em vez disso, optou por um projeto que ele define como “poema sinfônico”. Segundo o diretor, “É como se Elvis viesse até você em um sonho e contasse sua história, e a cantasse.”
Assim surgiu EPiC: Elvis Presley in Concert, que estreia em salas IMAX em 20 de fevereiro e chega aos cinemas de todo o Brasil em 26 de fevereiro. Apesar de a mina de sal ter contribuído para a preservação do material, a adaptação para exibição em telas atuais exigiu soluções técnicas e investimento financeiro.
O trabalho começou quando Luhrmann e o editor Jonathan Redmond analisaram rolos de filme originalmente gravados para Elvis: That’s the Way It Is (1970) e Elvis on Tour (1972). “Quando chegamos à sala de edição da Warner, havia um cheiro forte de vinagre”, relembrou Luhrmann. “Esse é o cheiro de filme se deteriorando. E o cheiro era tão forte que sabíamos que estava prestes a se desfazer”.
Após a transferência digital, parte das imagens de shows não contava com áudio. Nesse ponto, gravações multitrack preservadas pela RCA permitiram a sincronização das apresentações. Durante a busca por materiais complementares, a equipe localizou uma entrevista inédita de 45 minutos, gravada em 1972, sem câmera ligada. “Dá para perceber que ele está muito cansado e vulnerável”, disse Luhrmann. “Mas ele está falando, sem reservas, sobre a vida dele”.
A entrevista levou à decisão de usar a voz do próprio Presley como fio condutor do filme, combinando esse registro com trechos de conversas gravadas ao longo de sua vida. “Sempre foi sobre outras pessoas contando suas histórias sobre Elvis“, afirmou o diretor. “Qualquer pessoa que abasteceu o carro de Elvis e olhou em seus olhos escreveu um livro sobre isso. Este é o lado dele da história”.
O filme se inicia com um trecho de “An American Trilogy”, gravado em 1972. Em seguida, apresenta uma sequência de performances televisivas dos anos 1950, imagens registradas por fãs e cenas de filmes realizados na década de 1960. Em um dos depoimentos, Presley comenta: “A imagem que Hollywood tinha de mim estava errada. Eu sabia disso e não podia dizer nada a respeito”, seguido por: “Não foi culpa de ninguém, exceto talvez minha, mas eu estava apegado a coisas nas quais não acreditava totalmente.”
Ao longo de EPiC, o roteiro alterna apresentações de 1970 e 1972, incluindo músicas como “Bridge Over Troubled Water”, “Suspicious Minds”, “In the Ghetto”, “Burning Love” e “How Great Thou Art”. A montagem atravessa diferentes formatos e épocas de gravação, decisão que gerou debates internos durante a edição.
Para finalizar a restauração, o material seguiu para a equipe liderada por Peter Jackson, responsável pelo documentário The Beatles: Get Back. “Eles estabeleceram o padrão ouro para restauração de filmes”, explicou Redmond, ao citar processos de limpeza e recuperação sem descaracterizar a textura original das imagens.
A equipe também teve acesso a gravações posteriores a 1972, incluindo o especial de 1977. No entanto, Luhrmann optou por não incluí-las. “O corpo de Elvis está debilitado em 1977″, observou o diretor, ao explicar que não queria retomar imagens associadas ao período final da carreira. “Não queríamos nos repetir”, afirmou, “e não queríamos mostrá-lo em seu fim definitivo”.
O filme encerra lembrando que Elvis Presley realizou mais de 1.100 shows entre 1969 e 1977, chegando a fazer três apresentações no mesmo dia. “Ele voou tão perto do sol”, disse Luhrmann. “E então ele fica preso, para citar a música [“Suspicious Minds“]. Ele está preso em uma armadilha e não consegue sair.”
Mesmo envolvido na pré-produção de um filme sobre Joana d’Arc, Luhrmann segue ligado ao universo de Elvis Presley. Um show gravado em 1972 no Hampton Coliseum, na Virgínia, permanece inédito na íntegra e pode se transformar em um novo projeto no futuro.
Para o diretor, o interesse recente de públicos mais jovens pelo artista reforça a importância do lançamento. “Como todos os grandes ícones, chega um momento em que eles se tornam apenas figurantes ou uma fantasia de Halloween”, afirmou. “Mas Elvis era um ser humano extremamente pobre. Seus pais eram analfabetos. E, de repente, ele se torna o jovem de 20 anos mais famoso do planeta.”