Alexandre Garcia
17 de março de 2020 - 17:21

A URNA E A RUA

O presidente pediu para repensar; governadores proibiram; a mídia ameaçou com contágio. Mas nem o presidente, os governadores e o coronavírus impediram que multidões ganhassem as ruas do 15 de março - de carro, moto ou a pé.

O presidente pediu para repensar; governadores proibiram; a mídia ameaçou com contágio. Mas nem o presidente, os governadores e o coronavírus impediram que multidões ganhassem as ruas do 15 de março – de carro, moto ou a pé. O que levou tanta gente a esse desafio, essa rebeldia? Antes de xingar de irresponsáveis os que deixaram suas casas no domingo, seria bom pensar sobre os motivos que levaram milhões a correr riscos de saúde, a se insurgir contra ordens de governos e de supostos condutores de opinião.
Não são motivos gerados do dia para a noite. Vêm de longe. Nos outros tempos, os políticos percebiam que o eleitor exercia sua cidadania na urna e depois deixava nas mãos dos eleitos a condução dos assuntos públicos. Pois na era digital, em que as redes sociais elegeram o presidente, isso mudou. O povo que depositou o voto majoritário na urna de outubro de 2018, não esqueceu em quem votou. Tampouco esqueceu em quem votou para que realizasse aquele sonho de que votou. E foi para as ruas cobrar daqueles que estariam atrapalhando ou retardando mudanças na legislação e no combate à corrupção.
Simples de perceber também que foi posta em prática a divisão de poderes idealizada por Montesquieu e estabelecida na Constituição. O presidencialismo de coalisão – eufemismo para um sistema Frankenstein de governo – foi abolido pelas urnas e deixou de ser praticado pelo eleito chefe do executivo, com três décadas de vivência no Legislativo. Partidos e lideranças políticas agora não são donos de ministérios e estatais. A mudança doeu nos fisiológicos de sempre e eles ainda tentam dobrar o presidente, para que ele ceda. E se não recebem ministérios, estatais, tentam grossas fatias do orçamento, que é do poder executivo.
O 15 de março demonstrou que não é um homem – são milhões – que não é uma facção, um partido; são ideias, é a vontade da maioria que não quer mais protelação no cumprimento do que foi aprovado nas urnas. Quer reformas, não quer destruição de valores, não quer corrupção, quer segurança, quer uma economia que possa gerar emprego e riqueza. O presidente sabe que essa vontade é que manda; afinal, a Constituição começa afirmando que todo poder emana do povo. Assim, ele não vai fazer o que nós, jornalistas, queremos que ele faça. Vai fazer o que as urnas mandam, ou será apenas mais um da lista dos que esqueceram dos compromissos com seus eleitores. No domingo, o povo físico na rua foi além dos riscos sanitários para exigir de seus representantes que façam a sua parte na realização da vontade posta nas urnas.

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